Blockchain: como tudo começou?

Muitos de nós já ouvimos falar de Blockchain. É o nome da tecnologia por trás de criptomoedas como a Bitcoin. Mas como esta tecnologia funciona e porquê ela é tão revolucionária? Este é o assunto que vou explorar de forma simples na série de artigos “Blockchain, Mudança de Paradigma”, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas também sociológico e econômico.

Como tudo começou?

Não há como desvencilhar a história da Blockchain da história da Bitcoin. A Blockchain foi inicialmente proposta como uma tecnologia a ser usada para a criação de uma moeda digital e universal sem autoridade central, a Bitcoin. Mas para entendermos a motivação para criar uma moeda deste tipo, temos de dar um passo para trás e entender primeiramente o que são moedas e porquê elas existem.

A origem das moedas

Desde os primórdios da civilização, ou mesmo antes disso, realizamos trocas. Trocar é uma das maneiras mais simples que dois indivíduos têm de colaborar para atingir um objetivo. Se eu tenho algo que outro indivíduo quer mais do que eu e este indivíduo tem algo que eu desejo mais do que ele, nós podemos trocar. Muitos tipos de troca podem ser realizadas, comida por proteção, abrigo por água, armas por comida, etc.

Até a invenção das moedas, as trocas eram muito limitadas pois precisávamos encontrar alguém que desejava exatamente o que podíamos dar e que tinha exatamente o que queríamos. Os seres humanos logo perceberam que poderiam usar coisas que têm valor para a maioria dos indivíduos (comida, por exemplo) como um intermediário para trocas. Se eu possuo armas e desejo abrigo, posso trocar minhas armas por comida e após isso, minha comida por abrigo. Surgiam assim as moedas de troca, que inicialmente eram produtos fáceis de armazenar e de dividir em quantidades arbitrárias (grãos e posteriormente metais preciosos).

O uso de moedas permitiu a especialização de indivíduos de uma forma que antes era impossível. Para sobreviver, não era mais necessário aprender a caçar, plantar, colher, construir abrigo e se defender. Cada indivíduo poderia se especializar em uma única tarefa e trocar seus serviços por moedas para que pudesse adquirir o resto de suas necessidades. Surgiram assim as profissões: agricultores, ferreiros, artesãos, cozinheiros, construtores, guardas, etc.

Com o crescimento das civilizações, os Estados logo perceberam o valor de poder rastrear as trocas que eram feitas entre indivíduos e começaram a marcar as moedas com seus símbolos, o que ficou conhecido como cunhar moedas. Para garantir este poder, os Estados obrigavam seus cidadãos a realizar comércio e pagar impostos utilizando sua moeda.

Assim foi por muito tempo até o surgimento dos bancos. Falarei mais sobre o papel dos bancos neste sistema em outro artigo. Por enquanto, basta entender a proposta básica de valor dos bancos: “mantemos suas moedas em segurança para você e cobramos um preço por este serviço, eis um certificado emitido por nós para comprovar que você possui esta quantia em nossos cofres.”

O papel-moeda

A relação entre bancos e Estados sempre foi muito forte. Um dos bancos mais famosos da história foi o banco da família de Medici, uma família de Florença de extremo poder político durante os séculos XV, XVI e XVII. Inspirado pelos bancos, os Estados passaram a também guardar os metais preciosos em seus cofres e a emitir certificados destes metais em vez de cunhar moedas. Surgia assim o papel-moeda que todos conhecemos e usamos até hoje.

Não demorou muito para os Estados perceberem que as pessoas já nem se importavam mais com o que estava guardado nos cofres. O papel-moeda era a moeda que poderia ser usada para trocar, pouco importava se ela era um certificado de algo ou não, a própria escassez do papel-moeda era suficiente para que ela tenha valor por si só. Logo o papel moeda deixou de ser certificado de qualquer coisa, se tornou apenas uma promessa, uma promessa de que alguém o aceitaria como método de pagamento, e isto é de fato o suficiente. Assim o Estado, toda vez que precisasse de mais dinheiro para pagar uma dívida ou investir recursos, poderia imprimir mais papel-moeda, entretanto isso torna o papel-moeda menos escasso, e a lei da procura e da oferta faz com que o seu valor diminua e necessitemos de mais papel-moeda para comprar um produto, conhecemos isso como inflação.

Reserva fracionária

Existe outro sistema também responsável pela inflação, um sistema que provém da íntima relação entre bancos e Estados, ele é conhecido como reserva fracionária. Bancos não são obrigados a manter guardado em cofres todo o dinheiro que lhes é confiado, eles podem emprestar parte deste dinheiro a outras pessoas e cobrar uma pequena taxa por isso, um empréstimo. Entretanto, um empréstimo normalmente também é depositado em um banco e este banco também possui o direito de emprestar parte deste dinheiro. Isso faz com que o dinheiro inicialmente depositado seja reinjetado no sistema financeiro, multiplicando o valor inicialmente depositado e contribuindo para a inflação. Este sistema, conhecido como reserva fracionária, possui uma enorme fragilidade: caso algum devedor não pague o empréstimo, o banco se torna incapaz de garantir que terá o dinheiro que diz ter. Isso funciona pois em nenhum momento todos os clientes de um banco vão retirar todo o seu dinheiro depositado ao mesmo tempo, ou vão?

No início dos anos 2000, os bancos estavam aproveitando este sistema para realizar cada vez mais empréstimos e obter mais lucros. Foi então que começaram a emprestar dinheiro a pessoas de alto risco, com poucas garantias de que este dinheiro seria devolvido. Isso aconteceu pois um tipo de empréstimo em específico chamado de hipoteca começou a ser um dos investimentos mais procurados pois era considerado seguro e possuía uma boa taxa de retorno. Quando a inadimplência começou a aumentar, a fragilidade do sistema começou a ser exposta e um pânico generalizado tomou conta de todo o mercado financeiro. Este pânico não é nenhuma surpresa, o quê você faria se soubesse que talvez o seu banco não fosse capaz de garantir o dinheiro que você depositou nele? Sim, exatamente aquilo que todos os clientes de um banco não podem fazer ao mesmo tempo. Todos conhecemos este momento recente da história: a crise de 2007, a maior crise econômica desde a grande depressão de 1929. Foi então que a relação íntima entre bancos e Estados se mostrou ainda mais evidente. O governo dos Estados Unidos gastou quantidades exorbitantes de dinheiro (muitas vezes imprimindo mais) para salvar bancos e outras empresas da falência e cortar a reação em cadeia causada pela crise. O plano funcionou e a crise, apesar de ainda ter consequências nos dias de hoje, “acabou”. Mas o sistema não mudou, as dívidas dos Estados ainda são simplesmente impagáveis e bancos e Estados ainda sobrevivem com base na ideia de que podem adiar indefinidamente este problema.

 

Origem da Bitcoin e da Blockchain

Em outubro de 2008, coincidentemente um ano após a crise que colocou em evidência a fragilidade do sistema em que vivemos, uma pessoa (ou um grupo de pessoas) cuja identidade ninguém sabe ao certo, usando o pseudônimo Satoshi Nakamoto, publicou em uma lista de e-mails um documento de 9 páginas intitulado “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System(Bitcoin: Um sistema Peer-to-Peer de dinheiro eletrônico). Este documento apresentava com detalhes técnicos um sistema de dinheiro digital que não necessitava de bancos ou Estados para existir.

Criar um sistema de moedas digitais sem a necessidade de uma autoridade central é muito mais difícil do que pode parecer. Perguntas como “Quem emite as moedas?” e “Como evitamos que as moedas sejam transferidas pras pessoas erradas?” ou “O que acontece se o sistema for hackeado?” logo aparecem. Satoshi propôs um único sistema onde muitos computadores trabalham juntos para decidir quem possui quantas moedas e todos estão de acordo com isso.

Este sistema, nada mais é do que um banco de dados que guarda todas as transações de moedas que ocorreram desde o início da história do sistema. Essas transações são reunidas em grupos com várias transações chamados de blocos, estes blocos são “salvos” um após o outro criando uma cadeia de blocos (Blockchain).  A Blockchain da Bitcoin nada mais é que o registro de todas as transações de Bitcoin que já ocorreram.

Mas como decidimos quais transações são as verdadeiras? Cada bloco de transações, para ser aceito pela rede, precisa conter uma espécie de chave eletrônica, como uma senha. Não há como saber com antecedência qual será esta chave, apenas podemos verificar se uma chave está correta ou não. Por isso, todos os computadores participando desta rede competem para encontrar primeiro uma chave correta para cada bloco (tentando várias chaves diferentes). Quando um computador encontra uma chave correta, ele envia este bloco com sua chave para todos os participantes que aceitam este novo bloco como parte da Blockchain. Para alterar as transações ocorridas em um bloco, um computador teria que encontrar uma nova chave para aquele bloco, mas provavelmente quando ele a encontrasse, novos blocos já teriam sido adicionados à Blockchain e ele teria de alterar estes blocos também. Fazer isso em uma rede com milhares de computadores competindo para adicionar blocos é virtualmente impossível. É por isso que não há como hackear a Blockchain, desde que existam muitos computadores pertencendo a pessoas diferentes competindo para adicionar blocos.

Ok, mas porquê alguém colocaria seu computador para trabalhar e tentar adicionar blocos na rede? É aí que reside a genialidade do sistema, na minha opinião. Cada transação de Bitcoin deve pagar uma pequena taxa de acordo com o valor da transação, esta taxa é destinada ao dono do computador que encontrar a chave correta daquele bloco. É por isso que milhares de computadores competem para encontrar a chave dos blocos, pois aquele que a encontrar receberá como recompensa todas as taxas daquele bloco de transações. Este processo é chamado de Proof-of-Work mas é mais conhecido como “minerar Bitcoins”. Esta dificuldade artificial criada pelo mecanismo de “encontrar chaves corretas” adicionado ao incentivo financeiro faz com que o sistema de decisão se torne descentralizado em milhões ou mesmo centenas de milhões de computadores pertencentes a pessoas diferentes. Assim, ninguém possui a capacidade de decidir quais transações são as verdadeiras, é a rede inteira de computadores que decide isso.

Vimos como podemos garantir que Bitcoins podem ser transferidas de uma pessoa para a outra, mas como elas foram criadas? As Bitcoins ainda não pararam de ser criadas. A recompensa dos mineradores normalmente vai além das taxas de transações, eles ganham também um número fixo de Bitcoins novas que não existiam na rede até então. Este número fixo vai diminuindo conforme a quantidade de blocos que já existem na Blockchain, e continuará diminuindo indefinidamente. Assim, a rede garante matematicamente que nunca existirão mais do que 21 milhões de Bitcoins no mundo. Este mecanismo foi criado para impossibilitar a inflação (se quiser saber mais sobre escassez e de onde vem o valor da Bitcoin leia nosso artigo Criptoativos: dinâmica de mercado).

Ao elaborar este sistema, Satoshi Nakamoto mostrou para o mundo que é possível existir uma moeda digital, universal, com transações rápidas sem a necessidade de nenhuma autoridade central. Além disso criou um mecanismo para evitar a inflação e evitar o controle estatal das moedas. Esta tecnologia está sendo usada atualmente para muito mais coisas além de moedas digitais, como veremos em artigos futuros. O legado da Bitcoin recém começou.


Curiosidade: A frase The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks” (“Chanceler prestes a resgatar bancos pela segunda vez”) é o título de uma matéria de capa do jornal Times no dia 3 de janeiro de 2009. Ela está incluída no primeiro bloco da Blockchain da Bitcoin, conhecido como Genesis Block. Além de provar que a Blockchain começou após essa data, a frase também é considerada como uma critica de Satoshi ao sistema responsável pela crise de 2007 e 2008.


In cryptography we trust

Referências

Artigos como este exigem uma enorme simplificação dos conceitos abordados para manter a simplicidade e legibilidade. Criptomoedas é um assunto que envolve uma quantidade enorme de campos de estudo como: criptografia, sistemas distribuídos, bancos de dados, teoria dos jogos, macroeconomia e microeconomia. Deixo aqui uma lista de referências para todos que tiverem vontade de se aprofundar em alguns dos assuntos abordados neste artigo:

“O que é moeda fiduciária? Para quê serve?” – https://www.creditooudebito.com.br/moeda-fiduciaria-serve/

Bancos e Reserva Fracionária – https://www.youtube.com/watch?v=JG5c8nhR3LE

Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System – https://bitcoin.org/bitcoin.pdf

Peço desculpas se a maioria está em inglês, se alguém quiser material mais avançado em português, por favor comente aqui e poderemos encontrar ou mesmo criá-lo.

Cientista da Computação formado pela UFRGS. Engenheiro de Sistemas de Informação formado pelo Instituto Politécnico de Grenoble na França. Entusiasta do mundo crypto e de todos os aspectos tecnológicos, econômicos e políticos que ele envolve. Co-fundador do site CryptoBags.io.