A Permacultura do Dinheiro: o quê Bitcoin tem a ver com sustentabilidade?

A carta

Imagine: Você vive na Europa e o ano é 1788. Chega uma carta de um amigo distante. A carta é um chamado e, ao mesmo tempo, um aviso: Uma revolução está por acontecer dentro de um ano. Este amigo lhe dá algumas informações e fatos que, a princípio, lhe parecem muito confusos, indefinidos, até mesmo impossível de crer. Ele diz que tudo vai mudar radicalmente.  Avisa que a maior redistribuição de renda da história está por acontecer. Ele diz que a família real será eliminada e que toda a economia deverá ser redesenhada para adaptar-se a uma virada completa nos meios de produção e consumo. O amigo vai mais longe e informa que se você optar por participar desta revolução, mantendo-se informado, terá mais oportunidade de uma vida melhor para si e seus descendentes. Caso opte por manter-se como espectador curioso e cético, expressando apenas seus medos e sua aversão ao risco pode, mais tarde, contentar-se com o que lhe for designado.

Deve ser difícil imaginar um cenário destes. No entanto é exatamente isto que aconteceu com a Revolução Francesa, que mudou toda a vida na sociedade européia e no mundo ocidental. A classe dominante conheceu a guilhotina (inventada por um dentista de classe média), e a economia foi alterada de tal forma que foram necessárias várias gerações para se adaptar ao “mundo moderno”. De fato, ainda estamos nos adaptando, e uma nova revolução bate na porta.

Na revolução da Blockchain provavelmente não teremos a guilhotina. No entanto as mudanças econômicas serão muito mais transformadoras. E não se iluda sobre seus conceitos atuais de estabilidade, renda, emprego e distribuição de riqueza. Tudo vai mudar.

A alternativa é aprender.

O que é dinheiro?

Abra sua carteira. Tem algum dinheiro? Tire uma nota. Qualquer uma. Este dinheiro é conhecido como “Fiat”, ou moeda fiduciária.  Segundo a Wikipédia: o dinheiro Fiat é “qualquer título não conversível”.

Não conversível, como assim? É o dinheiro emitido pelo governo federal, sem lastro em ouro, ou qualquer outro objeto de valor intrínseco. O valor do dinheiro Fiat está apenas na confiança depositada pela população neste governo que o imprime, e na promessa de que estes pedaços de papel impresso têm, de fato, algum valor de troca para produtos ou serviços. Em outras palavras, o dinheiro tem o valor que as pessoas dão a ele no momento e na realidade econômica de oferta e procura.

Qualquer pessoa que tenha vivido no Brasil nas décadas de 70 e 80 ou que viva agora na Venezuela ou no Zimbábue conhece bem a realidade da hiperinflação, quando o dinheiro perde valor a cada momento que passa. O trabalho de um mês é pago no último dia, quando o valor do dinheiro é uma fração do que era quando você estava trabalhando.

O dinheiro é isto. Um símbolo de valor. Impresso e distribuído pelo governo central para que as pessoas possam realizar suas atividades dentro da economia nacional e internacional.

Mas como acontece esta “distribuição” de forma que, ao menos aparentemente, o dinheiro sempre parece se acumular nas mãos de alguns poucos e sempre falta para a maior parte da população?

A economia funciona de acordo com um plano

Assim como em uma sinfonia, a permanência humana na natureza poderia ser harmônica. A permacultura é o conhecimento que permite o desenho desta harmonia. A economia é a organização das transações de valor que ocorrem em cada escala da interação humana. A cada dia que passa, a distribuição de riqueza no planeta está mais concentrada no topo de uma pirâmide social. O desequilíbrio no mundo natural avança proporcionalmente a esta desigualdade econômica da sociedade. A medida que o valor econômico é centralizado nas mãos de poucos, avançamos com a destruição dos ecossistemas.

Hoje bilhões de pessoas passam suas vidas semi-escravizadas a um sistema econômico perverso, que cria medo para vender segurança, destrói a privacidade dos indivíduos para garantir o anonimato das instituições de controle político e econômico. A perpetuação do analfabetismo econômico na grande parte da população facilita este controle dos donos do poder.

Hoje, no Zimbábue, as pessoas têm telefone celular mas não têm dinheiro. O dinheiro perdeu seu valor a ponto de ser calculado pelo peso das notas. Uma sacola cheia de dinheiro tem menos valor que uma sacola vazia. No Brasil de hoje, uma pessoa da classe trabalhadora passará de 30 a 40 anos de vida servindo a um sistema financeiro que foi desenhado para acumular riqueza no topo da pirâmide.  Uma criança nascida hoje, em uma família de classe média normal, tem pouquíssimas chances de um dia ser dona do seu destino, comprar uma casa ou atingir independência econômica.

A história nos ensina que as civilizações não são estáticas. As mudanças sociais e tecnológicas acontecem à revelia das classes dominantes.

Sai o dinheiro, entra a Blockchain

Desde a invenção do computador até agora, pouca coisa mudou na realidade socioeconômica do mundo. Enquanto isto, tecnologicamente passamos por mudanças exponencialmente maiores e mais rápidas. Dois anos atrás ainda era um sonho a possibilidade de veículos em trânsito sem motorista. Este ano uma empresa está coletando dados referentes a mil milhas de condução sem motorista a cada dez horas.

A internet pavimentou o caminho para um mundo informatizado. O conhecimento se tornou rapidamente acessível. No entanto, 230 anos depois da Revolução Francesa ainda podemos ver a metade da população do planeta sem acesso a uma conta bancária ou qualquer outro serviço financeiro.   

Conhecimento é uma força neutra. Ou seja, pode ser usado com fins benéficos e democráticos ou para concentrar ainda mais o poder nas mãos de um ditador.

A Permacultura pode ser usada para criar comunidades sustentáveis ou enriquecer um monopólio. A Blockchain é uma tecnologia que pode ser usada para a descentralização do poder, entregando ao indivíduo o controle sobre suas transações econômicas, sem o controle do Estado, mas pode também ser utilizada para concentrar riqueza e poder ainda mais nas mãos de poucos.

Uma criança nascida hoje não terá a necessidade de uma conta bancária e possivelmente nunca usará talões de cheques ou dinheiro “vivo”. O dinheiro, como é conhecido pela maioria da população, deverá estar extinto em menos de vinte anos. A economia digital estará em tudo. A Bitcoin é a pontinha desse iceberg que emerge em velocidade exponencial. Novas tecnologias com potencial descentralizador estão sendo desenvolvidas em cima da Blockchain a cada dia que passa.

Mas o que isto significa para o cidadão comum? Aquele trabalhador que carrega suas contas até o final do mês? Em poucas palavras: Oportunidade e desafio.  

Qualquer pessoa, em qualquer lugar ou em qualquer nível econômico participa da economia, de uma forma ou de outra. Esta participação individual na economia é o fio da navalha. É o ponto de ação. É onde o indivíduo pode escolher. O desafio é de pensar diferente, a partir de um conhecimento novo que está disponível. A oportunidade é de exercer seu poder individual de escolha e se preparar ativamente para esta nova sociedade que já está aí.